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Despedida de casado e Nina: uma censura de mais de 40 anos.

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Críticos, autores e gerações de atores mais maduros sempre levantam em suas entrevistas e intervenções artísticas a importância de se valorizar a liberdade e de se aproveitar as mais variadas ferramentas que hoje podem ser usadas sem culpa, histórias tristes, algumas com finais felizes e outras de impactos tão reflexivos que levam o ouvinte a mudar seus olhos sobre determinados produtos culturais que são consumidos diariamente. O que mais se vê em grupos de amigos, de profissionais da arte é de como a censura no período do regime militar restringiu a difusão da arte, seja ela como pintura, cinema, televisão ou música. São histórias que impactam alguns, levam outros a indignação tardia e até levanta outros a não permitirem mais tais tipos de atitudes que vigoraram fortemente mesmo no período pós regime militar.

Stela (Regina Duarte) e Rafael (Antônio Fagundes)

Uma grande vítima dessa fatídica ativididade exercida pelo estado todos os dias foi a brilhante telenovela ‘’Despedida de casado’’, de Walter George Durst com direção de Walter Avancini. O autor, seguro da história que tinha em mãos, apresentou a Rede Globo na época um novo enredo que poderia mudar a visão do telespectador sobre o canal, que entrara num marasmo chá com adoçante devido a personagens e tramas de personalidades semelhantes. E vale ressaltar que anteriormente se teve a prova de que seria um tiro para dar certo: Gabriela, anos antes, mostrava da nudez de Sônia Braga sem nenhum tipo de restrição, O bem amado, em 1973, tratara da corrupção por líderes políticos e de como eles se safavam sem as pessoas tomarem conhecimento, em 1970, Assim na terra como no céu retratou uma cena escracha de estupro e morte da mocinha mais doce da década, Lívia. Dentro desse histórico apresentado, tanto o autor como a Rede Globo previram um tiro que se dado na mira certa, faria o nome da emissora para sempre.

Descrevendo um pouco mais, Despedida de casado retrata um casal jovem, que vivia o primeiro amor ainda em 1967, onde loucamente apaixonados decidiram por casar-se e viverem juntos, mas Stela (Regina Duarte) e Rafael (Antônia Fagundes) não contavam que dez anos depois a chama desse amor se apagaria abruptamente. Ambos optam por fazer terapia e tentar reacender o amor de anos atrás.

E aí que a história realmente se inicia: no consultório do Dr. Laio (Cláudio Marzo), Stela e Rafael percebem que o balde de água fria no casamento não caiu apenas para os dois, mas para muitos outros casais. Lídia (María Fernanda) e Roque (Felipe Wagner) vivem uma dificuldade intensa devido a diferença de idade muito grande entre os dois, o que leva a Lídia ser altamente insegura e Roque um homem muito duro com sua esposa. Já o casal Rejane (Rosamaria Murtinho) e Odilon (Nelson Caruso) viviam o verdadeiro relacionamento abusivo, Rejane, altamente dependente emocionalmente do marido se vê num beco sem saída quando ele a abandona e ao mesmo tempo a proíbe de seguir com a própria vida. Era um verdadeiro banquete aos comunistas, como foi dito por um dos generais na época.

O desenrolar da trama se resume em os casais refletirem sobre como cada um deve proceder sem machucar o outro e tudo isso regado à novas experiências, sexo fora do casamento, drogas, novas descobertas amorosas, etc. Mas o ponto chave do problema era: a mocinha se separava do seu impecável marido, e iria curtir seus prazeres de mulher solteira, sem culpa, sem peso na consciência e com o agravante de independência financeira, o que para um homem de 1970 era um ultraje e falta de respeito a sociedade.

O resultado é o conhecido: em dezembro de 1976 a censura emite um comunicado nacional onde informa que a novela Despedida de casado foi vetada por incitar o ódio e o ‘’amor livre’’, podendo ser ‘’nocivo aos jovens’’ e ‘’reforço do discurso comunista vigente a época’’, toda a equipe teve seu trabalho de meses, esforço coletivo e gasto em dinheiro e divulgação reduzidos a um único termo, visto em um relatório geral da censura em 1976: ‘’Perigo à sociedade’’

Despedida de casado recebeu vários títulos provisórios, e alguns deles até conhecidos: “A vida como ela é’’, ‘’Livre mulher’’, ‘’O casamento’’ e até ‘’Dona Flor e seus dois maridos’’. Nenhuma delas foram aprovadas, tendo ‘’O casamento’’ sido aceito depois de tanto relutar e debater. Meses mais tarde, através de uma nova arguição, conseguiram findar o real desejo de Walter Durst, que era ‘’Despedida de casado’’. Um dos grande problemas enfrentados em longos nove meses e que acarretou num prejuízo de 5 milhões de cruzeiros a Rede Globo.

Nina (Regina Duarte), poucos meses após o cancelamento de Despedida de casado.

E aí a pergunta que talvez esteja vigorando agora: como foi contornado esse impasse?

Num verdadeiro malabarismo técnico, foi decidido por criar uma nova trama para substituir o furo com essa novela e, enquanto isso não era possível, foi-se usado a mesma solução que em 1975, com a novela Roque Santeiro que só foi exibida dez anos mais tarde. Foi reexibido um compacto de ‘’O bem amado’’ (1973) até que em 27 de julho de 1977 era lançado o primeiro capítulo de Nina.

Nina foi uma telenovela exibida entre julho de 1977 a janeiro de 1978, com um pouco mais do que 140 capítulos, sendo escrito pelo mesmo autor e com o mesmo elenco da frustrada trama de Despedida de casado. Entrando em um contexto mais ‘’agradável’’, Nina (Regina Duarte) retratava uma professora da década de 1920, com os mesmos ideais que Stela, de luta pelas minorias e nas buscas e descobertas do próprio ‘’eu’’ em sociedade, mas que tinha um colírio aos olhos do regime: disputava o amor de Bruno (Antônio Fagundes) com a filha do Barão de Galba (Mário Lago) Arlete (Rosamaria Murtinho), o que para as donas de casa era mais do que suficiente para encher os olhos e a barriga por uma noite.

Nina (Regina Duarte) na novela que leva seu nome, 1977.

A exploração dessa competição feminina por um amor, uma vida estável, um casamento feliz era o assunto preferido para eles (os censuradores) e os números comprovam: embates históricos como os de Fernanda e Simone (Selva de pedra,1972) e Marisa e Cecília (Carinhoso,1973) são recordes em audiência. Mas personagens como Nice (Susana Viera) em anjo mau, 1976, apesar do carinho e receptividade do público não obteve um final tão feliz como o esperado por muitos telespectadores.  E com Stela, uma jovem mulher pré-divorciada não aconteceria o mesmo.

O que faltou em Despedida de casado: Fernanda (Dina Sfat) e Simone (Regina Duarte) num embate sem fim.

O ponto crítico desse problema é a forma no qual o trabalho de um autor foi reduzido a opiniões sensacionalistas e de caráter preconceituoso que levaram uma novela a ser congelada e esquecida por muitos anos. Títulos homônimos como ‘’Despedida de solteiro’’, ‘’A vida como ela é’’, “A outra’’ e “Rabo de saia’’ consolam a tamanha displicência e descaso que ocorreu com tramas mais antigas, como essa. Nesse sentido, a palavra talvez é que rege as possíveis conclusões desse descaso: talvez a trama realmente não devesse ocorrer, talvez a história ainda não estivesse madura o suficiente para ir ao ar, talvez as pessoas por mais que protestassem a favor da novela, não estivessem preparadas para receber essa história e absorvê-la de modo correto. Talvez, devessem ter arriscado levá-la ao ar e não se arrepender depois.

E assim, se comemora mais um ano de mordaça de Despedida de casado.

Veja o Resumo dos Capítulos

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“Orgulho & Paixão” nunca esteve tão perto de abordar a homossexualidade

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Comemorou-se nessa quinta, 28, o dia internacional do Orgulho LGBT, e, com o tema ganhando cada vez mais notoriedade, as nossas expectativas de que ele também tenha mais espaço na telinha seguem altíssimas, afinal, se não houver um bocado de esperança, o que serão das lutas, não é mesmo?

Nesse sentido, sabe-se que dos horários da grade de novelas globais, o das seis sempre foi considerado o mais leve, aquele destinado a contar as histórias mais singelas de amor, e, não atoa é uma das faixas mais queridas pelos espectadores, aquela considerada menos apelativa e que tem as tramas mais agradáveis. Elas funcionam como um calmante para o estresse diário e para o caos cotidiano, pelos quais a população em geral normalmente passa. Mas o que realmente nos interessa é que não há nada mais coerente que um horário que se propõe a falar sempre de amor – é claro, tendo seu foco variando de acordo com as tramas exibidas – traga a perspectiva da homossexualidade, uma vez que é isso que casais do mesmo sexo fazem: se amam, como quaisquer outros.

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Em “Orgulho & Paixão”, atual novela da faixa, a qual aborda questões bem relevantes e que merecem uma atenção especial em outro momento, há uma clara sugestão do tema na história de Luccino, personagem de Juliano Laham. Ele é retraído, sensível e nunca se apaixonou por ninguém. Ao menos, não até conhecer Mário, a persona disfarçada que Mariana, interpretada por Chandelly Braz, usa. Ao longo de vários capítulos uma amizade entre os dois foi sendo construída e desenvolvida de forma sutil. Carregada de muito carinho e admiração, essa relação ganhou novas formas e esteve longe de ser apenas pautada por um sentimento fraternal.

Luccino e Mariana

Juliano Laham e Chandelly Braz em cena de “Orgulho & Paixão”. (Reprodução: Globo)

Nos últimos capítulos, Luccino beijou Mário e, após tê-lo feito, ambos foram tomados por um grande constrangimento. Quando Mariana surge para questionar o amigo, ele se desculpa, pede um abraço, diz que o que há entre os dois é apenas amizade, mas, em seguida, pede que ela apareça nas próximas vezes como o sujeito de bigode atrapalhado, mostrando uma clara preferência pela figura que está no disfarce usado por ela.

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O que se faz entender por nós espectadores é que apesar da justificativa que pretendia afastar pensamentos considerados impróprios para a época, Luccino na verdade se sente atraído pela outra identidade de Mariana. É quando Mário aparece que os sentimentos do rapaz se afloram, marcando a real sexualidade do personagem.

Luccino beija Mariana

Luccino (Juliano Laham) não resistiu e beijou Mariana (Chandelly Braz) quando ela estava caracterizada como Mário. (Reprodução: Globo)

Novos Rumos

Tendo em vista que com Mariana e, consequentemente, com Mário, Luccino não poderá viver uma relação homoafetiva, o desenrolar da trama do rapaz parece apontar para Otávio (Pedro Henrique Müller), como mesmo afirma Laham para o Jornal Extra: “Acho que eles podem ficar juntos porque tudo está caminhando para isso”. Sem se declarar a favor ou contra esse desenvolvimento, ele acrescenta: “Torço para Luccino encontrar um amor verdadeiro, independentemente de ser com homem ou mulher. O importante é que ele não se importe com o que os outros pensem”.

 

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Alice Wegmann vive luto por sua mocinha de “Onde Nascem os Fortes”

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A supersérie “Onde Nascem os Fortes” está em sua reta final e um dos saldos positivos é com certeza a participação de Alice Wegmann como protagonista. Escalada após Pamela Tomé, a Jane de “Orgulho & Paixão”, ter sido remanejada para a novela das seis – decisão que se considera bem acertada, já que Alice está há mais tempo na telinha e obteve boa recepção em seus papéis –, a atriz conquistou agora, público e crítica com sua mocinha às avessas.

É chegado, entretanto, o momento de se despedir de Maria, e Alice, em entrevista ao F5, revelou um grande aperto ao se deparar com esse processo: “É difícil acabar. É quase como se uma pessoa muito próxima morresse, é um luto que a gente vive. Pra mim é muito dolorido. Estou me acostumando que não vou viver mais essa parte de mim, que é a Maria”.

é importante reconhecer a tristeza, e é importante sentí-la, ainda que doa. tudo bem não estar bem, às vezes. acordei nos últimos dias sabendo que seriam dias difíceis. e aceitei isso. é bom chorar. eu adoro, mesmo que não faça isso tanto. sentir é bom. quando uma coisa está perto do fim, a gente começa a recapitular tudo desde o início. vai puxando lembranças que se perderam por aí. hoje eu lembrei desse dia em que chorei vendo o pôr do sol no Lajedo. lembrei de colocar a mão pra fora da janela na estrada de terra e de jogar um jogo com o vento. lembrei do quanto o sertão me provocou. lembrei dos amigos que fiz com esse trabalho. lembrei do susto que levei sendo convidada pra cá e lembrei de vezes que pensei que essa personagem estava, para mim, escrita nas estrelas. e lembrei do quanto vai ser difícil me despedir dela. tem dias que a porta do elevador abre e o vizinho te dá boa noite e os seus olhos enchem d’água porque sim. e tá tudo bem. ainda que doa. é bom sentir.

Uma publicação compartilhada por Alice Wegmann (@alice.weg) em

Com um personagem tão importante, que além de tudo, se distancia do estereótipo convencional da boa moça que estamos acostumados a ver, Alice declara, ainda, que a personagem criada por George Moura e Sérgio Goldenberg é um dos papéis mais importantes de sua carreira, e não é difícil decifrar o porquê dela ser tão apegada a ele. Não só uma oportunidade e tanto, sua “cangaceira do sertão moderna”, como bem gosta de definir, provoca reflexões sobre o papel da mulher numa sociedade onde na maioria das vezes o homem é que ocupa o papel central e o de justiceiro. Para uma atriz que é frequentemente vista defendendo diversas causas em evidência, entre elas, a feminista, deve ser um grande prazer poder utilizar do seu trabalho para chamar atenção a questões importantes.

Alice Wegmann logo no início de “Onde Nascem os Fortes”. (Foto: Estevam Avellar/Globo)

Estudando Comunicação na PUC-RJ, Alice também revela que só fará outra novela quando terminar sua faculdade, o que esperamos que aconteça antes dos preparativos para “Tróia”, primeira novela das nove de Manuela Dias que estreia no ano que vem, começarem. É que ela está cotada para um dos principais papéis da produção e seria, além disso, mais uma parceria dela com a autora, com quem trabalhou em “Ligações Perigosas”, vivendo a ingênua Cecília.

Término das Gravações

As gravações de “Onde Nascem os Fortes” se encerraram há mais ou menos duas semanas e a reta final promete várias surpresas para o público. Está quase na hora de se despedir da supersérie do sertão e de Maria, a mocinha incomum que deu um novo status à carreira de Alice Wegmann e desconstruiu padrões de gênero.

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