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‘Órfãos da Terra’: uma bonita mensagem contada em uma história com estofo zero

Por José Miguel Toledo

“Órfãos da Terra” terminou nesta sexta-feira (26) deixando pouca ou nenhuma saudade. Embora tenha anotado um resultado satisfatório na audiência (média de 22 pontos, 4 a mais do que a antecessora “Espelho da Vida”), a trama gerou pouca ou nenhuma repercussão. Começou, contudo, alardeada como se fosse uma “novela das 21h” fora do horário, devido à sua potencialidade dramática com o calvário dos refugiados, ainda nos primeiros capítulos.

A bem da verdade é que, em abril, o público estava carente de qualquer produto que ocupasse a lacuna da novela das 21h, já que o cartaz era a insuportável “O Sétimo Guardião”. A trama de Duca Rachid e Thelma Guedes nunca deixou de ser uma mera novela das 18h, ainda que, no início, fosse uma boa novela das 18h.

Dalavia, Góes e Wegmann formaram o principal triângulo amoroso da história. Foto: Divulgação

Começou com o sofrimento da família da mocinha Laila (Júlia Dalavia), que perdeu tudo o que tinha na Guerra da Síria. A jovem se viu vítima da paixão obcecada do poderoso sheik Aziz (Herson Capri), que a queria para seu harém de mulheres. Laila aceitou o pedido de casamento, contanto que Aziz custeasse o tratamento de seu irmão caçula, gravemente doente. A criança, contudo, morreu, antes que Laila pudesse desistir de honrar seu casamento.

Para piorar a situação, a moça, a essa altura, já tinha um grande amor: Jamil (Renato Góes), criado como filho e braço direito de Aziz, e escolhido pelo sheik como futuro marido de sua filha, a geniosa Dalila (Alice Wegmann). Como Laila conseguiu fugir do marido com a conivência de outra de suas mulheres – Soraia (Letícia Sabatella), mãe de Dalila -, Aziz encarregou Jamil de capturar sua esposa.

Em poucos capítulos, muita coisa aconteceu e Aziz jurou Laila e Jamil de morte ao perceber que “fora traído” e que seu protegido, na verdade, estava apaixonado por sua esposa. Todos fugiram para o Brasil, onde a mãe de Laila, Missade (Ana Cecília Costa), tinha alguns familiares. Em meio a todo esse imbróglio, Aziz descobriu que outro de seus protegidos, Houssein (Bruno Cabrerizo), estava tendo um caso com Soraia, e atirou em ambos. A mãe de Dalila morreu, e o rapaz foi dado como morto, mas ressurgiu tempos mais tarde.

Avalia-se que as possibilidades do folhetim foram esgotadas muito cedo, já que, em menos de 30 capítulos, Laila e Jamil se casaram e o sheik Aziz morreu assassinado, misteriosamente. Dalila, até então apagada, decidiu vingar a morte do pai e passou a culpar Laila e Jamil por seu assassinato.

A morte do vilão Aziz se mostrou prematura demais. Foto: Reprodução

Três anos mais tarde, incontáveis possibilidades do roteiro ficaram em aberto: o “quem matou?” não indicou pistas, investigação, suspeitos, NADA. O público simplesmente foi obrigado a esquecer que havia um assassino misterioso na novela.

Bruno (Rodrigo Simas), que era apaixonado por Laila e existia como contraponto a Jamil, foi relegado a personagem secundário. A ideia inicial, acredito eu, era que o fotógrafo brasileiro tivesse suma importância na sinopse original, já que o nome do ator é muito bem creditado na abertura. Soraia não estava viva, como indicaram alguns conspiracionistas. Tampouco a volta do próprio Houssein foi útil para qualquer desdobramento.

Imersa em uma gigantesca barriga que durou a fase em que Dalila convivia com Laila e Jamil sob a identidade de uma benfeitora adoentada (e é aí que entra o absurdo recurso do mocinho ter sido criado por Aziz e nem sequer desconfiar de que aquela mulher poderia ser a filha do sheik), a trama desandou de vez.

Armações e golpes pouco convincentes tramados por Dalila deram sequência à novela até que houvesse uma reviravolta: a vilã sendo desmascarada. Passados poucos capítulos de euforia, “Órfãos da Terra” ganhou ares de reta final: sabe quando o autor esgota recursos, geralmente no ápice da loucura de um vilão, para acrescentar um gás final em sua novela? Pois parece que Duca e Thelma investiram neste esquema desde a última metade de julho.

Apesar de megera caricata, Alice Wegmann merece elogios por seu desempenho. Foto: Reproduçao

Chegou um momento em que simplesmente era inconcebível acreditar que ainda haveriam tantas semanas de novela no ar, com Dalila sendo presa, saindo da cadeia, recrutando novos e infindáveis aliados para suas maldades mirabolantes.

De resto, fica o destaque à excelente direção da novela, capitaneada por Gustavo Fernández, e ao seu principal propósito: o mershan social muito pertinente sobre os dramas de refugiados. Em uma época de tão aguçada discriminação contra imigrantes, depoimentos reais mesclados a ficção no Centro de Refugiados da novela trouxeram emoção e reflexão.

Do elenco, o destaque fica para Alice Wegmann, que tirou leite de pedra e deu absolutamente tudo de si para sua vilã de desenho animado. Prova que merece cada vez mais voos altos. Dalavia e Góes são bons atores da nova geração, mas nem de longe repetiram a química de “Velho Chico” (2016) – eles foram os protagonistas Tereza e Santo ainda jovens -, muito devido à falta de inteligência e construção convincente que creditou aos heróis uma ingrata capa de palermas e apáticos.

Vale destaque Eliane Giardini (ótima como Rania), Paulo Betti (muito bom em cena com a ex-mulher, como Miguel), Anaju Dorigon, Guilhermina Libiano, Herson Capri, Letícia Sabatella (infelizmente pouco aproveitados) e os atores do núcleo cômico Nicette Bruno, Marcelo Médici, Luana Martau, Osmar Prado e Flávio Migliaccio. Merecem elogios os novatos Cristiane Amorim (a impagável Santinha) e o ex-BBB Kaysar Dadour.

Deixo registrado também o ingrato papel a Rodrigo Simas, bom ator da nova geração e que brilhara como coadjuvante em “Orgulho & Paixão” (2018) antes de cair nesse verdadeiro king-kong que foi o Bruno.

Duca Rachid e Thelma Guedes já estiveram em seus melhores dias como novelistas. Foto: Divulgação

“Órfãos da Terra” fica como aprendizado para que, mais do que nunca, a Globo repense a duração de suas novelas. A trama, com aproximadamente 100 capítulos, talvez pudesse ter se encerrado com maior dignidade.

E quanto à faixa das 18h, é inacreditável, mas parece ser um horário que cada vez mais demonstra ter sido feito para produções de época. Alguém consegue se lembrar da última boa novela contemporânea na faixa? Talvez “Sete Vidas” (2015), de Lícia Manzo. E que venha “Éramos Seis”!