O filme Rainha de Katwe (2016) é baseado em uma história real de superação nascida entre becos de poeira e privações em uma das regiões mais pobres de Kampala, capital de Uganda. A protagonista da vida real se chama Phiona Mutesi, e sua trajetória extraordinária teve início em 2005, quando ela ainda era uma criança muito pobre, sem qualquer ideia de que o destino a colocaria diante de um tabuleiro que mudaria sua vida.

Na época, Phiona tinha apenas nove anos e acompanhava seu irmão pelas ruas de Katwe, em busca de algo para comer, quando se deparou com um grupo de crianças reunidas em torno de um homem em uma varanda improvisada. Ali, conheceu Robert Katende, um ex-refugiado de guerra e missionário que havia encontrado no xadrez uma ferramenta inesperada para transformar vidas.
Katende via no jogo mais do que movimentos de peças em preto e branco. Para ele, era uma linguagem universal de estratégia, disciplina e resistência — elementos que faltavam às crianças ao redor, mas que poderiam ser cultivados com paciência e propósito. Na falta de salas e lousas, o missionário ensinava na terra batida, com tabuleiros gastos e peças doadas. Em troca das aulas, oferecia mingau. No início, era o alimento que atraía os pequenos. Com o tempo, muitos passaram a voltar pelo próprio jogo.

Entre todas as crianças que se sentaram diante do tabuleiro, uma se destacou. Phiona não demonstrou interesse imediato, mas sua habilidade natural logo chamou atenção. Ela aprendeu rápido, jogava com intensidade e logo ultrapassou os colegas em raciocínio e visão de jogo. Katende percebeu que havia ali uma atleta em formação — não apenas no xadrez, mas na vida.
A infância de Phiona foi marcada pela dor. Órfã de pai desde os três anos, perdeu também a irmã mais velha pouco depois, e abandonou a escola por falta de recursos. Vivia com a mãe e os irmãos em condições extremas, onde a fome era mais comum que o acesso à educação. Ainda assim, encontrou no esporte um refúgio e uma possibilidade real de futuro.
Aos 11 anos, já era campeã nacional júnior de xadrez. Aos 17, competia em torneios internacionais e conquistava o título de Candidata a Mestre, uma façanha impressionante para uma jovem que aprendeu o jogo na periferia de Kampala. As vitórias foram abrindo portas: oportunidades de estudo, viagens, reconhecimento. Mas o mais importante, segundo Katende, era o que o xadrez havia despertado nela: visão, confiança e coragem.

O filme da Disney leva às telas essa história inspiradora. Interpretada por Madina Nalwanga, Phiona ganha vida sob a direção de Mira Nair, enquanto David Oyelowo dá rosto ao dedicado Katende. Rodado no próprio continente africano, o longa retrata a jornada esportiva de Mutesi e o ambiente hostil em que ela floresceu.
Katende, hoje diretor de uma organização sem fins lucrativos voltada à educação por meio do esporte, vê no filme uma chance de ampliar sua missão. Para ele, o xadrez é apenas o meio — o verdadeiro objetivo é mostrar que, mesmo nas situações mais adversas, é possível construir um caminho diferente.
“Não somos só nós, há muitas outras pessoas que se encontram em diferentes estados ou situações desesperadoras e acho que este pode ser um filme que irá animá-los e mostrar-lhes que, por mais que as coisas pareçam não estar indo bem, sempre pode haver um jeito, você só tem que perseverar e manter sua esperança.”
Robert Katende





