Em A Viagem (1994), o além da vida ganha uma representação visual e simbólica marcante — que foge dos estereótipos e mergulha em interpretações espirituais profundas. Entre gramados floridos e pedreiras infernais, o elenco viveu na pele (e descalço) o contraste entre a paz celestial e o tormento do umbral. Veja o vídeo:
Na trama, o plano superior é retratado como um espaço de serenidade e reflexão. Longe de qualquer cenário nebuloso, o “céu” aparece banhado por luz, repleto de jardins e caminhos verdes que simbolizam o descanso das almas e o progresso após a morte. Ali, os espíritos encontram paz, reencontram entes queridos e recebem orientação de guias espirituais — uma visão próxima do espiritismo kardecista, fonte de inspiração da autora Ivani Ribeiro.
O figurino reforça essa leveza: roupas claras, tecidos fluidos e cabelos soltos adornados por flores do campo. Até pequenos coelhos brancos aparecem circulando entre os personagens, simbolizando pureza e harmonia.

O ambiente celestial pode parecer acolhedor na TV, mas, nos bastidores, nem tudo era tão etéreo. As cenas foram gravadas em um campo de golfe em Nogueira, distrito serrano de Petrópolis (RJ). O ator Guilherme Fontes, que viveu Alexandre, relembrou o desconforto:
“O céu era bem mais fresquinho, gravávamos em Petrópolis, temperatura amena. Mas sabe que não era tão fácil? O gramado era espinhoso, e a gente só podia andar descalço. Não tem sapato no paraíso”, brincou o intérprete do vilão em entrevista ao jornal Extra.
Em contraste com a calmaria do céu, A Viagem também explorou o umbral — um espaço de dor e confusão destinado a espíritos atormentados, também chamado de Vale dos Suicidas. Escuro, abafado e tomado por ecos de vozes, o local é descrito como uma espécie de purgatório onde as almas enfrentam seus arrependimentos.
Alexandre, após tirar a própria vida, é enviado para esse limbo, onde revive sua culpa e raiva. É ali que o personagem inicia sua trajetória de redenção, mostrando que até o sofrimento é parte do aprendizado espiritual.

As cenas mais pesadas foram gravadas em uma pedreira desativada em Niterói (RJ). “O inferno da ficção era mesmo um inferno. Muito quente, um calor desgraçado (risos). Era muito bem-feito, um pântano imundo, com fogo em volta”, relembrou Guilherme.
O realismo das gravações e o uso dos efeitos especiais disponíveis na época tornaram o ambiente um dos mais impactantes da teledramaturgia.




