Joana Fomm não escondeu sua frustração com o desfecho de Perpétua, a figura mais antipática — e carismática — de Tieta (1989). Após meses incorporando a moralista rancorosa de Santana do Agreste, a atriz esperava um desfecho mais direto e contundente para sua personagem, mas os autores preferiram apelar para a fantasia. “Eu preferia uma coisa mais simples”, declarou a veterana na época da exibição original da trama, em entrevista ao jornal O Globo.

Durante quase oito meses, Joana mergulhou na pele de uma mulher amarga e obcecada por um passado idealizado. Sua entrega foi tão intensa que envolveu um processo minucioso de desconstrução estética, coordenado por toda a equipe da novela. A atriz se submeteu a transformações diárias para dar vida à personagem: maquiagem carregada, olheiras marcadas, sobrancelhas descuidadas — tudo meticulosamente pensado para acentuar a feiura e o desagrado que Perpétua provocava.
Segundo a maquiadora Regina Célia, o visual grotesco era uma exigência tanto do papel quanto da própria atriz, que se envolveu para valer com a composição da personagem. Já o desafio das cabeleireiras era manter as perucas de Perpétua impecáveis, apesar da aparência desgastada que o figurino exigia.
Criar variações para o figurino foi outro obstáculo. Mesmo com seis trajes, a predominância do preto e o estilo conservador fizeram com que o guarda-roupa fosse gradualmente reduzido a peças repetidas e acessórios marcantes — como os inseparáveis sapatos robustos e o emblemático guarda-chuva.

Na reta final da novela, Joana protagonizou mais uma cena de devoção ao retrato do falecido Major Cupertino e à misteriosa caixa branca — objetos que se tornaram símbolos do universo da personagem. Aliás, aqui vai uma curiosidade: o rosto do falecido marido da vilã era o do contrarregra Ângelo Augusto Serralha, que acabou improvisadamente chamado para fazer a foto.
“Um figurante posaria para a foto do Major, mas ele faltou e a Ana Blotta, pesquisadora de arte achou que meu tipo fico atendia ao script da novela”, contou ele.
Serralha também viveu um momento inusitado ao contracenar com Joana Fomm no último capítulo, no qual Perpétua tem uma espécie de reencontro com o Major. O mistério em torno da cena e o destino da personagem foram construídos propositalmente de forma ambígua pelos roteiristas Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares. Segundo Linhares, a ideia era deixar ao público a interpretação: a beata teria morrido, enlouquecido ou apenas sumido?

Joana Fomm sonhava com outro final
Para Joana, no entanto, a indefinição frustrou. Ela tinha uma proposta muito clara de como queria que tudo terminasse: “Por mim, a Perpétua estaria presente na hora da revelação do segredo da caixa branca em praça pública. Isto a arrasaria moralmente. Ela ficaria que nem uma barata tonta, vendo todos pegando a caixa e fazendo comentários sobre o que guardava ali. Só então iria embora. Depois de catar todo o seu dinheiro e arrumar a malinha, sairia pela estrada ao estilo chapliniano, com o guarda-chuva ajudando a compor a cena”.
Apesar da insatisfação, a atriz mostrou-se compreensiva e completou: “Acho que os autores quiseram me agraciar com um final bonito, cheio de possibilidades enquanto eu preferia uma coisa mais simples. Mas torço para que eles estejam certos e eu errada na escolha”.
O sucesso de Tieta teve um custo físico e emocional para Joana. Interpretar Perpétua exigiu um ritmo acelerado, movimentos bruscos e uma tensão permanente em cena. “Às vezes meus dedos não dobravam devido à força com que tinha segurado e brandido o guarda-chuva, além de o meu rosto doer inteirinho de tanto fazer tique e careta. Fisicamente, foi uma tourada mesmo. Isso sem contar a infinidade de textos que tinha que decorar”, contou, revelando o nível de entrega. Reveja o final de Perpétua no vídeo abaixo:




