Quem vê hoje a reprise de Rainha da Sucata no Vale a Pena Ver de Novo e se diverte com as tramas de Maria do Carmo (Regina Duarte) nem imagina o verdadeiro “calvário” que rolou por trás das câmeras em 1990. Embora a novela tenha entrado para a história com uma média astronômica de 61 pontos de audiência, seu início foi marcado por pânico, atrasos e uma operação de guerra para salvar o horário nobre da Globo.

Rainha da Sucata enfrentou a “tempestade perfeita” em pleno aniversário de 25 anos da Globo. Silvio de Abreu, acostumado a fazer rir no horário das sete, estreava na faixa das oito tentando equilibrar comédia e drama. O público estranhou. A extinta Rede Manchete, para piorar, lançava o fenômeno Pantanal, que roubava a audiência assim que a novela da lambada acabava.
No disso, o autor sofreu um baque pessoal devastador: a morte de seu irmão, Ubaldo. Em maio de 1990, com a novela há pouco mais de um mês no ar, a situação ficou insustentável. Silvio não conseguia entregar os textos, e a produção estava “com a corda no pescoço”. Foi aí que entrou em cena a generosidade de um gigante: Gilberto Braga.

Humilde, Abreu bateu na porta do colega pedindo ajuda. Gilberto, com seu olhar clínico, deu o diagnóstico: a novela estava uma bagunça de tons. “Acho que você está misturando muito comédia com drama. Vamos separar. Os personagens de comédia são esses e os de drama são aqueles”, sugeriu Braga.
Como Silvio estava estafado e de luto, Gilberto se ofereceu para escrever nove capítulos inteiros. Enquanto o autor titular se refugiava no Guarujá (SP) para colocar a cabeça e os blocos futuros em ordem, o amigo assumiu o comando do navio para evitar o naufrágio.
Em um bilhete enviado à direção da Globo na época, Silvio explicou a ausência citando o luto e problemas técnicos, e exaltou a parceria: “Resolvi recorrer à boa vontade de um amigo brilhante e talentoso”.

Além do atraso na escrita, a produção enfrentava outro problema bizarro: erro de cálculo. Os capítulos estavam indo ao ar com apenas 30 minutos de arte, quando o padrão era entre 45 e 50. Roberto Talma, diretor-executivo, teve que se virar nos trinta para “encher linguiça” e colocar a novela no tempo certo.
Essa necessidade de esticar a novela acabou virando estratégia de contra-ataque. A Globo começou a aumentar a duração de Rainha da Sucata para frear o crescimento de Pantanal, forçando a Manchete a começar sua novela cada vez mais tarde, perdendo assim o filé mignon da publicidade. Foi nesse momento, segundo o próprio Silvio de Abreu, que as novelas brasileiras ganharam a duração longa que têm até hoje.

Outra vítima dessa guerra foi o tradicional “cenas dos próximos capítulos”. A Globo percebeu que, nesse intervalo, o público mudava de canal para ver Juma Marruá (Cristiana Oliveira) e não voltava mais. A solução foi começar a encerrar o capítulo do dia com o gancho e emendar logo com a atração seguinte. Curiosamente, o recurso que adianta as próximas cenas voltou a ser usado há alguns anos pela emissora.
A volta por cima
A intervenção cirúrgica de Gilberto Braga salvou a lavoura. Ele organizou a casa, definiu melhor os núcleos e permitiu que Silvio de Abreu voltasse com fôlego novo. O resultado foi a virada no gosto popular, consagrando personagens como a inesquecível Dona Armênia (Aracy Balabanian) e a vilã Laurinha Figueiroa (Glória Menezes).

Curiosamente, no ano seguinte, foi a vez de Gilberto Braga passar aperto com O Dono do Mundo, rejeitada pelo público e ameaçada pela novela mexicana Carrossel, do SBT. Retribuindo a gentileza, Silvio foi quem entrou em campo para ajudar o amigo a reformular a trama e salvar a audiência.
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