Há onze anos, Lucy Mafra morreu após uma luta silenciosa contra um estigma. Embora tivesse um currículo extenso, a atriz partiu carregando o peso de uma mágoa que definiu sua última década de vida: o afastamento da televisão após ser acusada de furto dentro da Globo.
O episódio, ocorrido durante as gravações da novela América (2005), mergulhou a artista em uma depressão profunda que culminou em sua morte precoce.

Lucy dava vida a Claudete, vizinha e confidente de Islene (Paula Burlamaqui) no núcleo ambientado em Vila Isabel. Uma funcionária responsável pelos camarins apontou a atriz como autora do desaparecimento de uma quantia em dinheiro pertencente a Christiane Torloni. Por ironia, Torloni vivia na trama Haydée, personagem que sofria de cleptomania.
Embora o caso nunca tenha se transformado em um processo judicial formal, o “tribunal” da emissora foi implacável. Lucy foi demitida sumariamente, e sua personagem simplesmente desapareceu da trama de Gloria Perez. Na época, ela esteve no palco do Programa do Ratinho, do SBT, para comentar o caso.
Andrea Neves Schiavo Mafra, enteada da artista, ofereceu outra versão dos fatos em depoimento ao R7. Segundo ela, Lucy tinha desavenças com a camareira que a denunciou. No dia do suposto furto, a atriz apenas mexia em seu próprio armário, localizado próximo ao de Torloni.

A repercussão do caso transformou Lucy em persona non grata no meio artístico. Portas se fecharam no teatro e em outras emissoras. Anos depois, a atriz chegou a ser cotada para Joia Rara, produção das seis exibida em 2013, mas uma restrição interna da emissora barrou sua contratação.
Sem conseguir trabalho, ela abandonou o Rio de Janeiro e se instalou em Vassouras, cidade fluminense onde morava sua mãe. A sobrevivência passou a depender da generosidade de amigos.
O falecimento da mãe, em agosto de 2014, aprofundou o quadro depressivo que já a consumia. Quatro meses depois, debilitada e com severas limitações de mobilidade, Lucy foi internada no CTI. Permaneceu uma semana até a morte, em 5 de dezembro daquele ano, aos 60 anos. O laudo médico apontou falência múltipla de órgãos, pneumonia, insuficiência respiratória e câncer pulmonar.
Nascida na capital fluminense em 1954, Lucy descobriu a vocação artística no teatro de rua. O cinema a acolheu no fim dos anos 1970 e a televisão veio logo depois, quando integrou o elenco de Água Viva, novela de Gilberto Braga e Manoel Carlos lançada em 1980.

Ao longo das décadas seguintes, acumulou participações em produções marcantes. Esteve em A Próxima Vítima (1995), Por Amor (1997), O Clone (2001) e Chocolate com Pimenta (2003). Nesta última, viveu Venúsia, empregada doméstica na casa do prefeito Vivaldo (Fúlvio Stefanini). Outra atuação que ficou na memória do público foi como Dona Candoquinha, no humorístico Escolinha do Professor Raimundo, em 1990.




