Em um desfecho que fugiu de qualquer expectativa, Tieta (1989) terminou com uma cena que virou um dos momentos mais memoráveis da TV: uma tempestade de areia engolindo toda a fictícia Santana do Agreste.

Nos últimos minutos do derradeiro capítulo, o clima é de celebração, com Tieta (Betty Faria) retornando à cidade natal para inaugurar um ambicioso complexo turístico, além de prestigiar a abertura do circo Plim Plim, comandado pelo irreverente Bafo de Bode (Bemvindo Siqueira). No picadeiro, o mestre de cerimônias convoca um a um os personagens, reunindo todo o elenco em uma grande comunhão.
Mas o que se anuncia como final feliz logo vira um cenário com ares apocalípticos. Entre os espectadores, observam em silêncio Perpétua (Joana Fomm), Major Cupertino (Ângelo Augusto Serralha) e Zé Esteves (Sebastião Vasconcelos) na arquibancada. A festa é interrompida por uma súbita tempestade de areia — vinda das dunas de Mangue Seco — que devasta tudo ao redor.
A cidade some do mapa em questão de segundos, deixando para trás apenas uma paisagem desértica. No meio do nada, flutua o véu da heroína, como um vestígio simbólico, antes do letreiro na tela decretar o “fim”.

A ousada licença poética foi, na verdade, um gesto muito bem pensado. O autor Aguinaldo Silva revelou anos depois que o inusitado final foi uma forma de frustrar qualquer tentativa de continuação da novela. Nos bastidores da Globo, surgiam rumores sobre a criação de uma série derivada de Tieta — ideia que o autor e o diretor Paulo Ubiratan rejeitavam.
“Os atores começaram a dizer: ‘Queremos fazer um seriado depois da novela’. E a casa, a produtora da novela, acabou embarcando nessa ideia. Mas eu e o Paulo Ubiratan já estávamos cansados, não da novela, mas do trabalho. Queríamos partir para outra. Aí o Paulo falou para mim: ‘Pensa em terminar de uma maneira tal que não dê para fazer o seriado’.”
Aguinaldo Silva, em entrevista à coluna Play, do jornal O Globo
Foi então que o autor bolou um encerramento definitivo — e simbólico. “No último capítulo, quando tudo se resolve, quando todas as histórias estão encaminhadas, eu fiz uma súbita tempestade de areia vindo das dunas, se abater sobre a cidade e cobri-la inteiramente. Ninguém escapa, nem mesmo o autor, porque eu estava presente na cena e eu fui como todo mundo de Tieta, fui coberto pela areia que assim dá um fim definitivo à novela, não sobra nada, só uma duna enorme”, relembrou Aguinaldo.
O final, contudo, não deixa muito claro se os personagens realmente morreram na tempestade. Em uma visão mais otimista, talvez seja melhor pensar que todos foram forçados a abandonar Santana do Agreste, agora sepultada sob areia e esquecimento. Veja a cena no vídeo abaixo:




