A atriz Dorinha Duval morreu nesta quarta (21), aos 96 anos. A informação foi divulgada pela filha, a também intérprete Carla Daniel, por meio das redes sociais. “É com tristeza mas alívio que nos despedimos. Mãe, avó, amiga e que nos trouxe bons momentos de alegria para o público brasileiro. Te amo”, escreveu.

Dorinha ganhou notoriedade nas décadas de 1970 e 1980, quando deu vida à primeira versão da Cuca no clássico infantil Sítio do Picapau Amarelo, além de encarnar uma das irreverentes irmãs Cajazeiras na novela O Bem-Amado (1973). No entanto, sua carreira foi interrompida por um episódio que chocou o país: a artista assassinou o marido, o publicitário Paulo Sérgio Garcia Alcântara, em meio a uma discussão violenta.
O crime aconteceu em outubro de 1980, dentro da residência do casal, no Rio de Janeiro. Segundo os relatos da atriz, o episódio teve início após uma discussão conjugal, que rapidamente evoluiu para agressões físicas e culminou em três disparos. Ela alegou ter agido em legítima defesa, após ser humilhada e agredida.

Tudo começou após o casal retornar de uma festa à noite. Dorinha, que tinha compromisso profissional em Belo Horizonte no dia seguinte, começou a arrumar a mala em um quarto ao lado. Foi então que Paulo passou a chamá-la insistentemente.
Ao encontrá-lo deitado, apenas de cueca, ela presumiu que ele desejava transar. Mas, ao tentar se aproximar, foi bruscamente rejeitada. “Você é uma velha, não quero mais nada com você”, teria dito o publicitário, então com 35 anos — Dorinha estava com 51. Segundo o depoimento, Paulo passou a agredi-la com tapas e chutes. Humilhada e machucada, ela ameaçou tirar a própria vida. A provocação final teria sido a frase: “Ótima ideia. O revólver está ali.”
O revólver havia sido comprado por Paulo após um assalto recente em frente à residência. Ela pegou a arma e, pouco depois, viu o marido caído no chão, sangrando. “Não lembro de nada até vê-lo ensanguentado”, declarou à época.

Mesmo em choque, Dorinha foi quem telefonou pedindo ajuda. Enquanto Paulo Sérgio era operado, ela foi para a casa de um amigo, ainda sem saber que ele não resistiria aos ferimentos. Só se apresentou à polícia dois dias depois.
O caso ganhou enorme repercussão e dividiu a opinião pública. Amigos de Dorinha diziam que ela era emocionalmente fragilizada e vítima de abusos constantes. Já pessoas próximas a Paulo afirmavam que a atriz era possessiva e dominadora. O tribunal ouviu nomes como Chico Anysio e Paulo Goulart, que defenderam o caráter pacífico da artista.
No julgamento de 1983, ela foi condenada a um ano e meio de detenção, a ser cumprido em liberdade. O Ministério Público recorreu, e em 1989 um novo julgamento foi realizado. Dorinha recebeu a pena mínima de seis anos em regime semiaberto: passava o dia livre, mas dormia na prisão.
Após o cárcere, ela abandonou a TV e se reinventou como artista plástica. Em 2002, lançou a autobiografia Em busca da luz, em que narrou não só o crime, mas uma trajetória marcada por violências anteriores, como o estupro aos 15 anos e o abandono amoroso por um trapezista de circo.
Antes da tragédia que marcou sua vida, Dorinha foi casada com o diretor Daniel Filho, pai de sua única filha Carla. A atriz era a única intérprete das irmãs Cajazeiras que estava viva.
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