Não sobrou nada para Gerluce (Sophie Chalotte) e Paulinho (Romulo Estrela) em Três Graças. Quem manda no coração da audiência da novela das nove são duas coadjuvantes que, com química de sobra, roubaram a cena. Lorena (Alanis Guillen) e Juquinha (Gabriela Medvedovsky) não só conquistaram a torcida do sofá, como ganharam um “ship” próprio na web: “Loquinha”. E os números provam que elas são as verdadeiras estrelas do folhetim.

Segundo um levantamento do Google Trends, o interesse do público pelo romance entre as duas já supera, e muito, as buscas pelos protagonistas oficiais. Elas deixaram para trás até mesmo o casal formado por Viviane (Gabriela Loran) e Leonardo (Pedro Novaes), que teve um pico de curiosidade recente após a revelação da transgeneridade da farmacêutica.
Para Gabriela Medvedovsky, o sucesso é um divisor de águas. Mesmo com currículo que inclui Malhação: Viva a Diferença e Nos Tempos do Imperador, foi na pele de Juquinha que a atriz atingiu o auge de popularidade nas buscas online no Brasil.

O crescimento de “Loquinha” foi orgânico, mas explosivo. O primeiro pico de interesse surgiu na cena em que as personagens se conheceram, durante uma “noite das meninas”, mas foi o primeiro beijo que fez a internet quebrar de vez.
A repercussão escancara o poder de engajamento da comunidade sáfica. A diferença de recepção é brutal se comparada ao remake de Vale Tudo, antecessora no horário. Enquanto o casal Cecília (Maeve Jinkings) e Laís (Lorena Lima) teve uma passagem morna, qualquer vídeo curto de Lorena e Juquinha no Instagram do Gshow bate 1 milhão de views brincando. O beijo, aliás, atingiu essa marca em menos de 24 horas, gerando uma fábrica de memes.
O barulho é tanto que a Globo, de olho no mercado externo, começou a legendar os vídeos das duas em inglês e espanhol. Medvedovsky entrou na onda e até gravou recados em espanhol para as novas fãs gringas que chegaram pelo Twitter e TikTok.
O sucesso de Lorena e Juquinha tem sabor de redenção para a representatividade LGBTQIA+ na TV aberta, especialmente após dois banhos de água fria consecutivos.

Primeiro, Mania de Você frustrou o público ao prometer um romance entre Fátima (Mariana Santos) e Diana (Vanessa Bueno) e entregar apenas amizade, com Fátima terminando com um homem e Diana voltando para o marido. Depois, o remake de Vale Tudo prometeu atualizar a trama de 1988 — que sofreu com a censura da época —, mas acabou escanteando o casal lésbico da trama, repetindo o apagamento do passado.
Agora, Três Graças parece acertar o tom. Com beijo exibido sem alarde e namoro oficializado, a trama permite que o afeto flua naturalmente.
Quem está rindo à toa é o autor Aguinaldo Silva. Em suas redes sociais, o veterano celebrou o feito, lembrando de uma frustração antiga. “Desde ‘Senhora do Destino’ queria contar uma história assim. Finalmente consegui”, desabafou. Há 21 anos, ele escreveu o romance de Jenifer (Barbara Borges) e Eleonora (Mylla Christie), cujo beijo foi vetado pela direção da época.

Desta vez, sem vetos e com o apoio massivo do público, Lorena e Juquinha provam que o amor, quando bem escrito e interpretado, não tem gênero para ser sucesso de audiência. Mérito de Aguinaldo e de seus coautores, Virgílio Silva e Zé Dassilva, que souberam ler o desejo do público atual.
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